quinta-feira, novembro 29, 2012


“A Origem dos Guardiões” (Peter Ramsey)



Preciso confessar logo de cara: “A Origem dos Guardiões” me pegou já na primeira cena, sem dar espaço para as minhas rabugices ou para a minha resistência natural depois de um trailer que não tinha conseguido me empolgar.

E o segredo para este encantamento quase instantâneo é relativamente simples: o filme trabalha (e muito bem) as emoções. E assim, consegue ser sempre autêntico nos sentimentos que evoca.

Por conta disso, ele difere um bocado das animações da Dreamworks, que estão sempre atrás das gags e das referências pop, relegando assim os sentimentos a um segundo plano. A única exceção anterior era “Como Treinar o Seu Dragão”. Porém, “A Origem dos Guardiões” é ainda melhor.

As escolhas visuais são sensacionais, transformando o Papai Noel e o Coelhinho da Páscoa, por exemplo, em verdadeiros “badasses”. As bases operacionais dos personagens também são visualmente cativantes, repletas de detalhes e surrealidades. Uma provável influência/interferência visual de Guillermo Del Toro, produtor-executivo do filme.

Porém, não é no visual, mas na essência do personagem de Jack Frost, que a história ganha vida. Mesmo sendo uma lenda desconhecida para nós, brasileiros, a personalidade e o carisma deste carinha de gelo conseguem transformá-lo em um personagem universal. Temas caros aos contos infantis, como a crença na magia do Natal ou na pontualidade da Fada do Dente (ou do ratinho, em outras tradições), ganham aqui contornos caprichados, que não soam forçados como, por exemplo, em “O Expresso Polar”. A história é bem estruturada, fluindo sem exageros ou peripécias inúteis e dando espaço assim para sentimentos nobres, sem soar moralista em momento algum.

E mesmo que o vilão Pitch pareça um pouco com o Hades do desenho “Hércules”, sua maquiavelice o transforma em um dos melhores antagonistas das recentes animações infantis. Sua motivação, ainda que megalomaníaca, é perfeitamente compreensível, fazendo com que a trama gire em torno dos nossos objetivos neste mundo, e da necessidade de sermos vistos e reconhecidos pelo que fazemos, nem que seja em meter medo.

E excetuando as cenas de ação do final, que são obrigatoriamente grandiosas, como que para dizer que a história chegou ao clímax, o filme mantém-se atento ao seu cerne, seu âmago, seu objetivo primordial que me parecer ser o de encantar, de resgatar sentimentos esquecidos e de trazer um belo sorriso ao rosto de crianças e de adultos que sabem regressar, nem que por uma hora e meia, à infância.

(Rise of the Guardians – 2012)
Direção: Peter Ramsey
Roteiro: David Lindsay-Abaire
Elenco: Chris Pine, Alec Baldwin, Hugh Jackman, Jude Law, Isla Fisher         

Postado por Nery Nader Jr às 18:40

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“Os Penetras” (Andrucha Waddington)



“Os Penetras” não é uma comédia de erros. É uma comédia cheia de erros. E para compreender o quanto eles são nocivos ao filme, melhor começarmos pelos acertos.

O elenco principal, por exemplo. Marcelo Adnet está bem e, mais importante, está bem comedido. E isso é bom. Se ele exagerasse o filme poderia ficar over demais, sem falar que iria parecer apenas um veículo para o rapaz. Eduardo Sterblitch também está legal como o jovem do interior, meio (bem) bobo de amor. Já Luciana Ximenes não tem muito pra fazer/dizer. Precisa apenas parecer gostosa e salafrária.

A direção de Andrucha Waddington também não compromete... demais. Até porque comédias não exigem planos e sequências milimetricamente calculados. Muito mais importante é o timing. E aí a mão de Andrucha pesa um pouco. Mas vamos falar disso depois, porque ainda estamos no lado bom do filme.

A produção é bem cuidada, mas hoje em dia isso é o mínimo que esperamos de um filme profissional de qualquer nacionalidade. Ainda assim, vale dizer que é tudo de bom gosto, inclusive na escolha dos cenários, sejam eles suntuosos ou molambentos. Para contribuir com este apuro visual, vale citar a bela fotografia de Ricardo Della Rosa, que valoriza a capital carioca – o que talvez não seja tão difícil, já que dizem que o Rio de Janeiro continua lindo...

O grande problema é que o filme peca, justamente, no roteiro. As situações são forçadas e não têm muita graça. Os personagens são ocos e mudam de comportamento de acordo com as necessidades do texto. E assim, não conseguem criar qualquer vínculo com o público. E as poucas gags que talvez funcionassem carecem de um timing mais acurado, por vezes se prolongando além do necessário. Muitas situações não têm função na trama, nem mesmo para fazer graça, como na longa sequência que se inicia na batida policial. Personagens secundários também parecem meio jogados, como os de Luis Gustavo e Susana Vieira – que aliás dão a impressão de que estão numa novela.

Por fim, a força-motriz da trama, que seria a paixão do malandro vivido por Adnet pela namorada de Sterblitch, simplesmente não convence ninguém. E por conta disso, todas as tramoias tramadas soam vãs. Penso mesmo que faltou um tanto de paixão ao projeto. Afinal, não é por ser uma comédia malandra, que brinca com os limites morais, que os sentimentos devem ser deixados de lado.

(Os Penetras – 2012)
Direção: Andrucha Waddington
Roteiro: Andrucha Waddington, Marcelo Vindicatto
Elenco: Marcelo Adnet, Eduardo Sterblitch, Mariana Ximenes, Stepan Nercessian, Susana Vieira, Luis Gustavo

Postado por Nery Nader Jr às 18:28

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sexta-feira, novembro 23, 2012


“Curvas da Vida” (Robert Lorenz)



No começo de “Curvas da Vida”, ao ver aquele cavalo negro trotando em direção à câmera em meio à escuridão, cheguei a pensar que poderia estar diante de um clássico instantâneo. Porém, a trama logo revelou que eu estava enganado.

“Curvas da Vida” é um filme correto. E só. Com o roteiro atrelado a um esquematismo exagerado, os bons atores e a competente direção conseguem apenas nos entregar um filme linear, sem arroubos criativos ou momentos memoráveis.

Tanto o romance quanto o drama familiar se enroscam em fórmulas banais, que acabam por contar uma história edificante e nada mais do que isso. Não tenho problemas com filmes otimistas, senão não seria fã de Frank Capra. Mas nem por isso quero que tudo seja tão redondinho, com resoluções exageradas, e até desnecessárias, esbarrando sem cerimônia nos inúmeros clichês empilhados ao longo de todo o filme.

E se a máxima diz que não devemos mostrar uma arma se não pretendemos usá-la, também diz, nas entrelinhas, que não devemos dar tanto valor a uma cena aparentemente isolada se queremos valorizá-la tanto assim lá na frente.  

Talvez com Clint na direção a direção do filme mudasse um pouco. Mas tenho minhas dúvidas, já que ele é, além de ator, um dos produtores de “Curvas da Vida” e deve ter aprovado o texto do jeito que está. (E que ninguém me ouça falando isso, mas quem sabe se o Paul Haggins tivesse feito uma pequena revisão no roteiro...) 

(Trouble With The Curve – 2012)
Direção: Robert Lorenz
Roteiro: Randy Brown
Elenco: Clint Eastwood, Amy Adams, Justin Timberlake, John Goodman, Robert Patrick, Matthew Lillard

Postado por Nery Nader Jr às 16:39

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quinta-feira, novembro 08, 2012


“Argo” (Ben Affleck)



Imagine conceber um filme falso, com direito a roteiro, cartazes, coletiva de imprensa, figurinos, equipe técnica e escritório de produção. E tudo isso com um único objetivo: resgatar do Irã seis diplomatas americanos isolados na casa do embaixador canadense em Teerã.

Parece ficção, mas aconteceu realmente, em 1980, durante a chamada Crise dos Reféns no Irã. E como na natureza hollywoodiana tudo se transforma, este filme que nunca existiu acabou gerando um ótimo filme dirigido e estrelado por Ben Affleck.

A trama, surpreendente por natureza, foi muito bem trabalhada, evitando o panfletarismo óbvio. São os dramas pessoais e a corrida contra o tempo para salvar aquelas seis vidas que movem o filme. Ben Affleck é sutil nos comentários políticos, deixando-os em segundo plano, e usando para isso trechos exibidos pelas emissoras de TV da época. Assim, as motivações dos agentes da CIA, dos profissionais de Hollywood que se envolveram para conceber a farsa (interpretados pelos ótimos John Goodman e Alan Arkin, que provém todo o humor necessário ao filme), do embaixador do Canadá, de sua esposa, da empregada deles e dos diplomatas sitiados são expostas de forma cuidadosa e, ao mesmo tempo, sutil.

Affleck comanda a produção com talento veterano, ainda mais se pensarmos que esta é apenas a sua terceira incursão por detrás das câmeras, além de nos entregar uma ótima interpretação como Tony Mendez, o profissional da CIA especialista em “exfiltrações”. A criação dos momentos de tensão segue fielmente a cartilha hitchcockiana e prolonga o suspense pelo maior tempo possível. É claro que devem existir muitas licenças poéticas nas situações geradas, mas filmes como este precisam existir em um crescendo capaz de valorizar o medo, o nervosismo e as situações-limite.

A produção é muito feliz na fotografia setentista, na recriação de época, nos detalhes visuais, nas alegorias e conexões com “Star Wars” e na ironia com que a indústria cinematográfica é apresentada.

No fundo, “Argo” nos mostra que uma história surpreendente pode gerar um filme surpreendente. Desde que o talento, a dedicação e a paixão estejam envolvidos no processo.

Adendo final: vale ainda aplaudir a escolha do título nacional – só “Argo”, sem nenhum famigerado subtítulo do tipo “O filme que nunca existiu”.

(Argo – 2012)
Direção: Ben Affleck
Roteiro: Chris Terrio
Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, John Goodman, Alan Arkin, Victor Garber

Postado por Nery Nader Jr às 17:59

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